HOJE, EU OUVI SEU FADO
Mamãe sempre
foi alegre, e era comum escutar sua voz pelos cômodos da casa, cantando as
canções de sua mocidade, principalmente fados!Seu gosto por fados vinha de sua
educação, dada pelos seus pais portugueses.
Do
portão eu já ouvia seu cantarolar, ao entrar, ela me envolvia e dançávamos
alguns passos da música que ela estava cantando, para depois nos abraçarmos e
rirmos de sua alegria.
Até
hoje, quando passo em frente a casa onde morávamos, parece que ouço o eco de
seu canto e de seu riso...
Certos
fados, a faziam chorar, não só pela canção e os gemidos dos bandolins, como
pela saudade e lembrança de seus pais, então... Ela ficava em silêncio...
Em suas
bodas de ouro, fomos comemorar num restaurante dançante, lá ela rodopiou em
meus braços pelo salão, leve como uma pluma me conduzia ao som de valsas e
boleros. Dançou de rosto colado com papai, e quando a dança terminava, ela o
beijava na boca... Parecia uma adolescente, e, Papai, na sua simplicidade,
ficava muito vermelho e ria.
Os
presentes fizeram um circulo em volta dos dois e aplaudiram... Mamãe ganhou flores e abraços, riu muito, acompanhou as canções
cantarolando baixinho... Nunca vi mamãe tão feliz!
Eu falei “mãe descanse um pouco” e
ela disse “não filho, está é a última vez que faço bodas de ouro”. Ela estava
alegre e radiante, e, infelizmente foi a última vez que dançamos...
Hoje, ouvi
seu fado, então chorei... Ao lembrar da sua alegria, da sua voz, da sua
ausência, do seu fado...
(Sidney Gavin)

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